Igualdade de Oportunidades - As quotas
Respondo hoje aos comentários de Afonso Henriques e Nónio ao post de ontem. E começo por dizer, por confessar, que eu também já pensei que as mulheres deviam participar no poder político (e na vida pública em geral) não por uma imposição de quotas, mas apenas por mérito próprio. Mas, felizmente, mudei de ideias. Do meu ponto de vista, amadureci, evoluí. Porque concluí que a “meritocracia” é um sistema que raramente funciona e não é suficiente para que haja igualdade de oportunidades entre homens e mulheres. E passo a explicar.
Se as mulheres podem actualmente participar na vida pública, isso deve-se ao facto de terem lutado pelos seus direitos. Não foi porque os homens as “obrigaram a crescer”.
“Mulheres e homens têm direitos iguais porque a Humanidade se desenvolveu, porque as ciências avançaram, porque as sociedades evoluíram, porque a Justiça e a Democracia são assumidas como ideais em constante aprofundamento. E o Direito, que é uma construção humana, procurou acompanhar e encorajar progressos, avanços, evoluções e aprofundamentos.”
As mulheres são muitas vezes excluídas em concursos de emprego porque são ou podem vir a ser mães. As mulheres são diferentes dos homens, não há que negá-lo. Mas “a desigualdade implica fazer decorrer das diferenças uma hierarquização e implica uma subordinação”.
Se as mulheres podem actualmente participar na vida pública, isso deve-se ao facto de terem lutado pelos seus direitos. Não foi porque os homens as “obrigaram a crescer”.
“Mulheres e homens têm direitos iguais porque a Humanidade se desenvolveu, porque as ciências avançaram, porque as sociedades evoluíram, porque a Justiça e a Democracia são assumidas como ideais em constante aprofundamento. E o Direito, que é uma construção humana, procurou acompanhar e encorajar progressos, avanços, evoluções e aprofundamentos.”
As mulheres são muitas vezes excluídas em concursos de emprego porque são ou podem vir a ser mães. As mulheres são diferentes dos homens, não há que negá-lo. Mas “a desigualdade implica fazer decorrer das diferenças uma hierarquização e implica uma subordinação”.
“Só nos aspectos biológicos ligados à maternidade e à paternidade, os papéis das mulheres e dos homens são naturalmente distintos. No que respeita aos papéis sociais, não existem diferenças naturais ou sequer diferenças inevitáveis.”
Algumas pessoas dizem que essa participação virá com o tempo, naturalmente.
“A evolução dos comportamentos nas sociedades não se faz "naturalmente”, mas através de tomadas de consciência, da participação dos cidadãos, de reformas ou de revoluções. (...) A própria Democracia é uma invenção dos seres humanos” e de natural nada tem.
O que se observou ao longo dos tempos foi a uma desigualdade social – colocando homens na esfera pública e mulheres na esfera privada – partindo da principal diferença biológica entre os sexos: a maternidade. Assente na maternidade estão ideias do senso, comum como “o homem trabalha fora de casa e a mulher trata do lar”.
Se apenas as mulheres que não têm filhos, ou são solteiras, podem aceder à vida pública, então não há igualdade de oportunidades.
Retomando o tema das quotas, importa salientar que a tarefa de promoção de igualdade de direitos entre homens e mulheres consta na Constituição, sendo o Estado, responsável por promovê-la. E observe-se o sistema de quotas:
- os deputados portugueses no Parlamento Europeu estão lá porque existe uma quota;
- o lugar de Comissário Europeu é uma quota;
- os deputados na Assembleia obedecem a quota – mais deputados eleitos pelas zonas onde existe mais população.
Se não existisse o mecanismo das quotas, poderia acontecer que os deputados da Assembleia fossem só de Lisboa e Porto – as zonas de maior poder político-económico. Isso seria justo? Concordarão que não!
Sendo assim, porque é que o sistema de quotas (de mulheres deputadas) é visto como “fazer o favor às mulheres de as deixar entrar”, e não é questionado quando se trata, por exemplo, dos deputados europeus? Afinal, se não fossem as quotas, os portugueses não tinham lugar em Bruxelas!! Se calhar porque não tinham “força suficiente”...
Por último, deixemo-nos de hipocrisias, os nossos deputados não são escolhidos (apenas) pela competência. Todos sabemos disso, certo? Ou seja, afirmar que as mulheres devem participar apenas se tiverem mérito próprio é quase como dizer que se não estão mais mulheres na Assembleia, é porque são incompetentes. Se os homens que lá estão fossem todos competentes, não havia tema para muitos blogs que se dedicam (quase exclusivamente) à política.
Fonte: Afinal, o que é a democracia paritária?, Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres, 2003

24 Comments:
Note-se que o assunto que surgiu foi o das mulheres na vida política, mas também existe discriminação relativamente aos homens: dificilmente têm direito à vida privada e à família. Mas isto é tema para outro post...
Em 1º lugar agradeço e convite, que desde já aceito e mais acrescento que não me sinto particularmente lisonjeado pelo facto de um comentário meu suscitar um extenso post teu, Montellano.
Nada mais natural, face a um comentário Real.
Estou a brincar. Agora é que é a sério:
Afirmas tu que do teu ponto de vista amadureceste e evoluiste.
Pois antes tivesse sido o teu ponto de vista a amadurecer e a evoluir,
É o que te digo. A “meritocracia”, como dizes, funciona quando há espaço e condições para isso. As mulheres sempre puderam participar na vida política desde há 30 anos em Portugal. Não foi porque lutaram pelos seus direitos. Só não participam mais porque não querem.
Cuidas tu que Mª de Lurdes Pintasilgo abriu caminho a golpes de montante até se tornar 1ª Ministra? Ou que Mª Filomena Mónica é quem é porque porque sempre foi excelente atiradora de arco e lesta no manejar da adaga e do escudo? E Helena Roseta ? Por acaso manifestou habilidades próprias no manejo do machado de dois gumes? Não. São mulheres que tiveram e têm a coragem de seguir o caminho que para si quiseram. Sem quotas.
Afirmas tu que só biológicamente homens e mulheres são diferentes.
Revolvem-se-me as entranhas perante semelhante despautério.
Pois ignoras tu que na educação dos filhos, por exemplo, os papéis de pai e mãe são tão diferentes quão complementares?
Chamas tu invenção à Democracia? Invenção ? A Democracia é a mais civilizada forma de governo alguma vez criada pela humanidade. Criada. Não inventada. Demorou tempo a nascer, foi e tem sido amparada enquanto cresce e terá que ser sempre amada como um filho, ou filha. A roda, isso sim, é uma invenção.
Afirmas que “...assente na maternidade estão ideias do senso, comum como “o homem trabalha fora de casa e a mulher trata do lar.””
Ideias do senso comum? Chamas ao mais profundo atavismo senso comum? A promoção da igualdade de direitos cabe a todos nós. Todos nós é que somos o Estado.
Comparar as quotas sexistas com o número de lugares no Parlamento Europeu é falacioso. As quotas de deputados no parlamento Europeu está dependente do “peso” do país que representam, tanto económica como em nº de habitantes. Não tem nada a ver com sexo.
Por último, referindo-me ao teu último e infeliz parágrafo, além de não serem só homens que vegetam no nabal que conhecemos como Assembleia da República, nada nos garante que se lá houvesse a tua querida “quota” parte de mulheres, a bovinidade passiva que grassa por aquelas bandas fosse menor.
Saudações Afonsinas
Afonso Henriques,
Não tenho tempo para responder a tamanhos disparates. Talvez na Segunda-feira.
Bom fim-de-semana a todos/as!
Típico.
É claro que há aí argumentos muito válidos e com os quais concordo. Não sou fundamentalista nem "meritocrata".
Mas manetnho o que disse. Estou para saber se não há mais mulheres na política porque os homens não deixam ou porque as mulheres simplesmente não querem ou não têm vocação.
Repare. Como bem diz, há diferenças. E eu adoro essas diferenças. Não as descarto ou iludo. Ainda bem que há diferenças. Se as mulheres têm filhos e são prejudicadas por isso, têm uma série de coisas que são certamente vantagens e os homens outras desvantagens.
Se as mulheres têm mais jeito para estudar e tirar boas notas, porque razão havemos de impedir que os homens mais mandriões entrem em medicina à sua frente?
O mesmo é válido para a política.
Pois se os homens têm características que lhes facilitam a entrada na polítcia...
Se calhar é porque são melhores políticos, seja lá porque motivo for (se é que isso é um eleogio).
Há profissões tipicamente femininas. Porquê? Por dois motivos: ou as mulheres fazem melhor do que os homens ou, pura e simplesmente, os homens não querem fazer aquilo e as mulheres querem.
No caso da política, tenho a opinião que a maioria das mulheres não quer ser política. E muitos homens quereriam sê-lo e não conseguem. Pois se estabelecermos cotas, teremos então, alguns bons políticos de fora da cota e muitas más politicas em cargos de responsabilidade sem capacidade.
O mesmo em relação aos médicos. Como "consumidor", não posso aceitar que venha a ser atendido por um pior médico, quando ficou fora da cota uma melhor médica.
Sobre a questão do português e face à enérgica reacção do Afonso Henriques à minha "Cota", devo dizer o seguinte. Segundo o dicionário da língua portuguesa, a palavra cota aplica-se, de facto a medições (arquitectos - VELHOS???????) como disse o Afonso. No entanto, se nos referirmos a quota, como "quinhão", como aqui é aplicada, pode escrever-se das duas formas - quota ou cota, embora seja mais vezes aplicada a forma quota.
Conclui-se, por isso, que seria melhor o Anfonso aplicar toda a sua energia folheando um bom prontuário antes de disparatar com os outros, pois a minha aplicação da palavra estava correcta. Nem sempre acontece. Falho, mas desta vez nem por isso.
Bom fim-de-semana.
Ó nónio pá, não te amofines tanto que não vale a pena!
Tens razão. Cota também está certo.
Isto agora com o "acordo ortográfico" é fartar vilanagem.
Qualquer dia, de fato, ninguém sabe qual a diferença entre interceção e interseção. Mas não fiquem com cara de cagados por isso. Os acentos são coisas descartaveis.
De qualquer maneira tens lugar cativo aqui no quiosque e as minhas pelejas são de outra monta.
Passa bem.
Bem podiam ter um pouco mais de respeito pela dona do blog... :-)) No entanto, acho que este tema devia ser mais participativo e já que falam em quotas... tb aqui a participação das mulheres anda um pouco por baixo, quase ao nível da participação na Assembleia. Afonso Henriques, esqueceste-te de mencionar as outras facas de dois gumes (infelizmente uma delas já desaparecida)... Natália Correia e a Zita Seabra!
Bem...quando li o Post de abertura, vinha com ideia de responder seriamente. Mas lendo as respostas que mereceram, sinceramente, já nem me apetece comentar!
Infelizmente, a mulher não é avaliada pela sua inteligência, pelo seu bom sendo, pela sua astúcia!
Se calhar, se mais mulheres estivessem no poder, Portugal não estava no caos onde se encontra.
Mas, enquanto os homens pensarem que são os donos da verdade...a mentira irá continuar a imperar!
:-)
http://eternamentemenina.blogs.sapo.pt/
Afonso Henriques,
Eu sei que com o passar dos séculos há uma certa tendência para a senilidade... Estou a brincar, agora é que é a sério:
Fiquei estupefacta com tamanha perspicácia em todos os teus comentários. Mas, de todos, o que foi mais importante para esta troca de ideias, foi a distinção entre "criação" e "invenção". Com certeza que o dicionário está errado, e não podem ser sinónimos. Se não, tu saberias, não é verdade?
Nónio,
As mulheres não têm mais "jeito" para estudar. São diferenças culturais, incutidas desde que se nasce, que faz com que exista uma série de estereótipos. Como a mulher ter mais "jeito" para a costura, ou para passar a ferro. Poderá dar mais "jeito" aos homens tal predisposição das mulheres... Mas, geneticamente, não me parece que existam tais diferenças.
Concordo quando diz que existem profissões tipicamente femininas: geralmente ligadas à educação, à sáude, de cariz social. Por exemplo, educadora de infância ou docente do ensino básico. As mulheres saíram de casa para... continuar a tratar de crianças. Para um homem é extremamente difícil enveredar por esta profissão sem ser conotado de homossexual. São os estereótipos vigentes na sociedade actual e é difícil contrariá-los.
Quanto às cotas no curso de medicina, quando põe a questão dessa forma, é evidente que tem razão. Mas, se um homem e uma mulher tiverem as mesmas competências, e 90% dos estudantes forem do sexo feminino, porque não dar a vaga ao homem? Isto, claro está, se estiverem em igualdade no que se refere a competências.
E é nesse mesmo sentido que concordo com as cotas na Assembleia. Se houver mulheres com as mesmas capacidades que homens, escolham-se as mulheres! Porque a Assembleia representa (teoricamente) o povo Português, que é constituído sensivelmente por 50% de cada sexo. Se na Assembleia houver apenas 20% de mulheres, dificilmente os interesses das mulheres serão defendidos por uma maioria de homens.
Micróbio, podias ter dado a tua opinião. (Esse comentário sobre a participação feminina é uma verdade, mas está fora do meu alcance...).
E a Menina Marota não se pode deixar intimidar por comentários menos sérios. Gostava que tivesse participado de outra forma.
è triste viver num país em que as mulheres para entrarem na política, tem-se de impor quotas aos partidos políticos...
Vá lá, vá lá...
O Nónio teve que comer a sopa toda e foi para a cama sem ver televisão e eu safei-me com um ralhete e um sorriso e já cá estou fora a reinar....
A minha posição é muito simples, Montellano... a competência impõe-se pela competência e não de outra maneira. Não é impondo quotas de participação na vida política que se aumenta a competência, quaisquer que sejam os critérios: sexo, cor, idade, etc...
Só quem depende da politica pode estar preocupado.
São sempre os mesmos "ratos do poleiro" que aparecem nas campanhas um pouco por todo o país. Maior parte deles são funcionários do Estado. São ratos que chegaram onde chegaram por serem militantes do partido A ou do partido B e que têm medo de perder o lugar caso o seu partido não ganhe.
Ratos voadores ? Serão morcegos ?
Funcionários públicos escanzelados, voadores e sedentos de sangue?
Que pesadelo....
Cheguei...e digo - Tens razão fofo!...Jinho, BShell
Olá Montellano. É a primeira vez que venho a este teu espaço e para estreia sou confrontada com um tema que dá pano para mangas.
Uma coisa que aprendi na minha vida académica é que há, pelo menos, sete inteligências diferentes e tanto homens como mulheres têm acesso a todas elas. Obviamente, que ambos os géneros têm diferentes apetências, mas nada impede a um homem ficar em casa a tratar da vida doméstica enquanto que a mulher vai para o escritório trabalhar para que haja o que comer em casa.
Sou totalmente a favor da mulher independente, com o seu trabalho e a sua realização pessoal. Já muitas vezes me perguntei por que há tão poucas mulheres na vida pública, mas é verdade que tenho conhecimento de muitos casos de mulheres que abdicaram da vida profissional em prol dos filhos e da casa. Acho que todas as mulheres sentem esse chamamento (chamemos-lhe assim) e algumas não lhe resistem :)
Não queria entrar em pormenores relativos a quotas e a erros ortográficos, mas acho sim que as mulheres têm uma grande importância na sociedade de hoje em dia e deviam ter mais consciência disso. Muitas delas acomodam-se à sua vida pacata e não trabalham as suas verdadeiras apetências... o que é uma pena.
Bem, vou ficar-me por aqui porque sinceramente há tanta coisa a dizer sobre este assunto que posso correr o risco de perder-me entre ideias.
No fundo, acho que as mulheres têm tanto direito como os homens a ocupar cargos importantes, e aos homens não faz mal nenhum pôr-lhes um avental à frente e obrigá-los a fazer a lida da casa de vez em quando.
Bom fim de semana a todos/as
Infelizmente, acho que grande maioria da humanidade não acredita nos potênciais da mulher, e esquecem-se que se não fosse o sexo feminino, com a ajuda do masculino não andava ninguém neste mundo... porque é que não lhes dão credibilidade para mostrar o que podem fazer pelo mundo... Voos doces
Bem, pelos comentários deu para ver que este tema gera (ainda) controvérsia. Mas quero só acrescentar que o PS contou com 23 mandatos por Lisboa, dos quais 8 são mulheres. Já o PSD contou com 12 mandatos por Lisboa, e elegeu apenas uma mulher... E viva a igualdade de oportunidades!!
E ainda bem que só viste o PSD e o PS, pq se tivesses visto as eleitas da CDU ficavas mais assustada!
Está provado que um sistema de discriminação positiva funciona a médio prazo: foi assim nos EUA com e as admissões dos negros na faculdade e em outros casos. No entanto, tal sistema deve ser sempre temporário e durar apenas o tempo necessário a que se criem as condições objectivas de igualdade, após o qual a discriminação positiva torna-se aberrante. Desta forma, as cotas para mulheres na AR fazem sentido apenas enquanto existirem barreiras invisíveis à igualdade de oportunidades. Quando essas barreiras forem derrubadas (com a ajuda das cotas), estas deixam de ser bem-vindas. As cotas são alvo fácil de crítica (subvalorização a mulher, etc.) opr todos aqueles que querem manter o status quo ou não compreendem as injustas desigualdades existentes.
concordo plenamente qd te referes à desiguldade provocada pela maternidade. mas a oportunidade mesmo sendo dada aos dois duvido que não fosse naturalmente escolhida pela mulher. quanto às quotas sou contra. é uma forma de aceitação da descriminação. o que existe são cunhas para a justificação da incompetencia. e acrescento... Manuela Ferreira Leite à liderança do PSD!!!
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